segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nelson Mandela é chinês e católico

Desembarco em Pequim e as tias do meu marido vêm nos buscar no aeroporto. Cidade grande, bonita, e em uma praça vejo uma grande torre quadrada parecida com as torres da Catedral de Notre Dame, com uma cruz ao pé e outra no topo. Mais adiante vejo outra dessas torres. E mais outra. Resolvo perguntar.

"Essas são torres em homenagem ao Nelson Mandela".

Ah, sim. Bom, faz sentido… Ou não? De qualquer forma, tenho coisas mais importantes a fazer, como assistir à sacada do prédio em frente ser projetada para fora e depois de volta a seu lugar, para logo em seguida os três meninos que se sentavam no sofá ali colocado se jogarem para baixo.

"Oh, céus, eles se mataram!"

"Não, fica tranqüila… Olha, eles caíram na sacada do apartamento abaixo."

Então todos os meninos em suas sacadas no prédio em frente resolvem se jogar em coreografia para o andar logo abaixo e um flashmob começa. E, como não poderia deixar de ser em qualquer flashmob que se preze, meu irmãozinho de coração Caio está participando.

"Mas o Caio não tinha ido para o Japão? Bom… O Japão é perto da China…"

Vou cumprimentar Caio, mas de repente uma confusão me impede de chegar perto dele. E um dos priminhos chineses loiros do John decide que foi ofendido de alguma forma pelo Caio e junta sua gangue de meninos de 8 anos para bater nele.

Não posso deixar meu irmãozinho apanhar, então vou atrás dos moleques - prestando atenção às placas da Avenida Shuan Shuan para saber voltar depois -, pego o priminho chinês loiro do John pelo topete e o ameaço. "Você é um moleque de oito anos de idade, recolha-se à sua insignificância ao invés de juntar essa pirralhada para dar uma surra no Caio!", ao que o loirinho se assusta e sai correndo para a barra da saia da mãe.

Tudo isso em frente a um cemitério. Volto pela Avenida Shuan Shuan para o restaurante onde a família do John me espera. Em meio ao almoço, uma de suas primas rouba meu prato. Mas com carinho, porque é assim que chineses são.

Aí meu despertador toca e eu acordo com a certeza de que meu subconsciente está mais do que ansioso para a viagem.

"Será que eu estou sonhando?"

Um sonho curtinho dessa vez.

E nem foi o Sherlock certo!
Me olho no espelho e não estou usando aparelho nos dentes. "Mas não me lembro de ter ido à dentista tirá-lo!"
Me aproximo do espelho. Passo a língua nos dentes e não sinto o aparelho. "Não é possível, será que
eu estou sonhando?"
Me viro então para o Sherlock Holmes ao meu lado e pergunto "Eu estou usando aparelho?". Ele me garante que não e então eu sei que não estou sonhando. Afinal de contas, Sherlock Holmes não mentiria para mim.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os Leitores Da Mente e os Dragões da Resistência


Eu caminhava tranquilamente por uma praia com um mar revolto onde ondas gigantescas e cinzentas avolumavam-se no horizonte.

Pensava em todas aquelas coisas em que só nos é permitido pensar em estados alterados de consciência quando, subitamente, dei-me conta de que pisava em uma imensa massa amorfa cheia de dentes.

Sobressaltada, pulei para desvencilhar-me do que diabos fosse aquilo. Neste processo, um dos dentes afundou-se dolorosamente em minha carne e eu sangrei todo o sangue de vinho do Universo.

Um senhor sentado em uma cerca surgiu enquanto eu alucinava em meus últimos momentos e disse-me:

- Tudo isso não passa da sua imaginação. Preste bastante atenção: Você deve lutar! Eles estão colocando estas imagens na sua cabeça, não deixe que isso atrapalhe sua jornada. Lembre-se das aulas de oclumancia. Feche sua mente!

Quando olhei para mim mesma novamente, percebi que não sangrava mais. Não havia nem resquício do corte que momentos antes marcava minha pele. E eu não estava mais em uma praia perambulando em cima de uma massa amorfa cheia de dentes, mas sim em um quarto de hotel do século XXIII, eletronicamente tecnológico e cirurgicamente limpo.

- Ah, agora sim, de volta à realidade - pensei, respirando fundo e acendendo um cigarro.

- O que você está fazendo aí? - perguntou minha irmã do meio abrindo a porta do banheiro - Se eles descobrirem qualquer coisa... você sabe que isso vem de contrabando!

- O cigarro vem de contrabando? - perguntei, encarando de testa franzida meu Marlboro recém aceso.

- Claro que não, imbecil! Os dragões!

Ela abriu a porta do armário - e agora o quarto de hotel parecia-se muito com meu próprio quarto, só que com muitos botões e telas planas e coisas que faziam um zumbido esquisito - e mostrou-me nosso pequeno estoque de filhotes de dragões coloridos.

Onde deveria haver prateleiras e gavetas e roupas amassadas havia dois filhotes de dragões verdes-galeses comuns, um focinho-curto sueco muito azul, um bonito e cintilante olho-de-opala e quatro ovos coloridos prontos para eclodir.

- O sitema "It's bigger on the inside" que o Doctor instalou aqui está funcionando maravilhosamente bem, heim? - eu comentei.

- Ele também faz parte da nossa Resistência. Você sabe, sem os dragões não podemos derrubar os Leitores Da Mente.

Neste momento, um apito muito alto e muito estridente ecoou pelo recinto e batidas estrondosas quase derrubaram a porta do quarto.

- Eles nos descobriram! - gritou minha irmã - Vamos para o abrigo! - continuou, entrando no armário e fechando a porta atrás de si.

Mal ela havia fechado a porta do armário, a porta do quarto explodiu em mil pedacinhos e quatro homens mal-encarados vestindo elegantes fraques pretos e óculos escuros adentraram malemolentemente.

- Toda resistência é inútil! - gritou um deles.

- Cadê os dragões? - perguntou outro, retirando os óculos - Nós sabemos que eles estão aqui.

- É isso aí! - disse um terceiro - Nós vimos a fumaça!

- Fumaça? Seria essa? - eu disse, tragando meu cigarro e soprando anéis de fumaça na direção deles - Pelo que eu saiba, isso aqui não tem asas ou dentes afiados. Nem cospe fogo. A não ser que vocês chamem essa brasa de um terrível lança-chamas mortífero e desumano.

Os quatro homens de fraque ficaram a observar-me com expressões confusas por alguns instantes, até que um deles lembrou-se de que havia esquecido alguma coisa no fogo e, ora veja!, talvez fosse aquilo que estivesse fazendo a fumaça!, e saiu apressado e praguejando, seguido de perto pelos outros.

E então, quando eu estava prestes a encontrar com minha irmã para treinar nossos dragões nas artes das batalhas contra os Terríveis Leitores Da Mente, infelizmente acordei.

...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Gato Elástico e a Revolução Felina

Era a casa onde eu costumava morar quando pequena, e lá eu estava novamente, sem ao menos me perguntar como havia ido parar lá (e desde quando a gente pergunta essas coisas em sonhos?). Estava com meus pais e mais um bocado de gente que eu conhecia e que não conhecia também. E eu sabia que tinha um gato, e - cat lady que sou - estava loucamente procurando por ele.

Então o gato apareceu. Cinza, listrado, com a barriga branca. E lá fui eu-titia-Felícia apertar gatinhos. Fazendo carinho na sua barriga, no entanto, percebi que ele não era um gato comum. Eu podia puxá-lo e ele se esticava tanto quanto eu quisesse. Logo o gato-elástico virou sensação na festa (ah, sim, era uma festa), e eu ria puxando seu rabo, suas patas e seu pescoço.

Mas aí tentei levantá-lo do chão. Por alguma razão que apenas os sonhos conseguem explicar, este foi o estopim para a revelação do gato-elástico. Alguém na multidão falou uma palavra e ele repetiu. Sim, repetiu. Todos na festa se espantaram e pararam o que seja que estivessem fazendo. Alguém disse outra palavra. Mostrando certa dificuldade em articulá-la, o gato voltou a repetir. Todos, então, começaram a falar para que o gato-elástico-agora-falante passasse a repeti-los. E uma após a outra, o gato repetia todas as palavras ao seu redor.

Perigo, meu alarme interno acendeu. Levantando-se como uma majestade felina, o gato-elástico-e-falante deu uma risada maligna e enfim revelou o seu plano.

Imagens correram por todos os presentes na festa. Gatos ao redor de todo o mundo se preparavam para uma revolução, um golpe de estado que transformaria os gatos na espécie dominante e faria dos humanos seus escravos. A razão, o gato-elástico-falante disse, era que os gatos eram a única espécie munida de pensamento racional no planeta.

Assim a revolução começou. Os gatos tomaram conta do planeta e apenas um pequeno grupo de humanos rebeldes tentavam nos salvar da tirania dos felinos (sim, porque qualquer pessoa que conheça um gato sabe muito bem que eles seriam ainda piores do que os humanos se tomassem conta do mundo). Logo este pequeno grupo começou a unir forças com outros animais, em especial os elefantes, para iniciar uma contra-revolução. Iríamos provar aos tiranos gatos que nós, os outros animais, éramos sim donos de pensamento racional e capacidade intelectual.

E aí, justamente quando a revolução ia começar, meu despertador tocou. E eu, cat lady assumida, confesso que fiquei um pouquinho desconfiada quando aquele gato da casa do lado me encarou enquanto ia para o trabalho.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Uma Nova Sonhadora

Fiquei um tempo pensando em como poderia começar minha apresentação, aí me lembrei daquela velha máxima que diz que nada é clássico por acaso, portanto…

Olá!

A partir de hoje este blog ganha mais uma sonhadora. Assim como a Karol, também tenho muitos sonhos e muito bizarros. E, assim como a Karol, também tenho outro blog, para quem se interessar.

Como meu primeiro post aqui, resolvi reciclar um post já utilizado no meu outro blog. Não por falta de carinho, mas sim porque este post conta de forma resumida os principais temas dos meus sonhos. E, acredite, eu sonho muito.

Então assim, sem mais delongas, apresento a lista de "Sonhos Que Eu Tenho":

Desde minha mais remota lembrança tenho estes sonhos. Para mim eles sempre foram muito normais e eu achava que todos tinham sonhos como os meus - até começar a contar para as pessoas e elas fazerem cara de "Céus, você é louca". 

Na adolescência, talvez devido aos hormônios, a freqüência e o nível de bizarrice dos sonhos aumentaram muito. Somente após os 19 eles começaram a ocorrer com menos freqüência - ou eu passei a lembrar menos deles.

Houve uma época em que tentei interpretá-los. Quer dizer, alguns sonhos que tenho são facilmente explicáveis - foram causados por algo que vi, falei ou pensei durante o dia. Já outros, por mais que terapeutas possam tentar interpretar, simplesmente não significam nada, exceto que eu tenho uma imaginação bastante fértil.

Mas há uma espécie de padrão nos meus sonhos. A maioria deles podem ser enquadrados em algumas categorias. São elas:

- Cidade dos Sonhos: Há uma cidade que freqüentemente visito durante os sonhos. Comecei a sonhar com ela por volta dos 15 anos de idade, e no começo era uma cidadezinha de interior, com uma pracinha simpática e coreto no centro. Com o tempo ela foi aumentando - não me perguntem como, mas eu sempre sei quando estou nesta cidade, e também sei que é a mesma cidade desde a primeira vez -, ganhando prédios, lojas, prefeitura, shopping centers, metrô. Uma das regiões desta cidade tem verdadeiros arranhacéus de centenas de andares, com elevadores que andam em todas as direções. Com grande freqüência eu visito o topo destes arranhacéus e observo - com uma certa vertigem mas sem muito medo - a cidade lá de cima. Há também nesta Minha Cidade muitas igrejas, que são o próximo tópico.

- Igrejas e Sinagogas: Não sou religiosa. Oficialmente me considero agnóstica, mas confesso que tenho lá minhas crençazinhas aqui e ali. Não vem ao caso. Mas o fato é que já tive e ainda tenho muitos sonhos passados em igrejas e sinagogas. Todos eles são envolvidos por uma aura extremamente religiosa - quase medieval. Já sonhei, por exemplo, que eu era um homem entrando numa igreja, chorando porque havia perdido toda a família. Esse homem - eu - olhava para o Cristo pendurado no altar e, gritando algo em russo, tirava um punhal do bolso e o enfiava na própria barriga. Em outro sonho eu chorava copiosamente em uma sinagoga porque queria o direito de entrar na área reservada para os judeus de nascença, até que um rabino de barba longa me entregou algumas escrituras que eu deveria ler antes de poder entrar ali. Em outro, ainda - que por acaso foi o primeiro sonho que me lembro na Minha Cidade -, eu procurava por uma igreja ortodoxa. Ao encontrá-la eu precisava urgentemente entrar nela, mas vi que ela estava em reforma. Havia anjos assustadores em sua fachada.

- Shopping Centers: Menos macabros do que os do tópico anterior, os sonhos com shopping centers têm se tornado mais freqüentes nos últimos anos. São sonhos em geral chatos, porque entram em um ciclo que nunca termina. No último que tive com este tema eu tinha que sair do shopping após seu fechamento, e a única forma era através de um tobogã no qual eu tinha que prestar muita atenção para fazer a curva no lugar certo ou voltaria para dentro do shopping. Não preciso dizer que esqueci de fazer esta curva MUITAS vezes, até enjoar do sonho e acabar acordando.

- Praias, Piscinas e Lagoas: Estes são sonhos que eu realmente precisaria filmar para poder explicar. Na parte de piscinas e lagoas em geral eu também vôo - o que acontece quando eu pulo muito alto e demoro para voltar ao chão. Já as praias são verdadeiras obras surrealistas. São sonhos bastante claros e cheios de cores vibrantes, todos os desta categoria. O mar muda muito de forma - em uma das vezes ele era cerca de 1,5m mais alto do que a areia e ficava como que "pendurado" no ar, como se houvesse uma barreira invisível segurando-o. As piscinas em geral têm chafarizes e animais - como uma vez, em que o tubarão que habitava uma delas virava um leão quando saía da água. Já as lagoas são sonhos com natureza, geralmente com uma cachoeira e trilhas na montanha. Só em sonho, mesmo...

- Mudar de Casa: Já mudei muitas vezes. Contando nos dedos não cabe em uma mão todas as mudanças que já fiz na minha vida. Mas se eu for contar aí também as mudanças que já fiz em sonhos, não sobra dedos para contar história - nem se eu usasse os de todos vocês juntos. Estes sonhos se passam em casas ou apartamentos que são verdadeiros paraísos. São em geral sonhos muito agradáveis, mas que me deixam um pouquinho triste quando acordo e percebo que não era verdade. Confesso que estes sonhos talvez representem minha inquietação ao morar muito tempo em um lugar só.

- Viajar: Estes são os sonhos em que eu mais digo a frase "E desta vez não é sonho, é de verdade!". Não precisa nem dizer quão decepcionada fico quando acordo, não é? Já viajei para o Egito, para Paris, Londres, Madrid, Tóquio, Pequim, Sidney... Tantas cidades e países que já conheci em sonhos que não saberia citar todas. Em vários destes sonhos eu choro de emoção ao perceber que "realmente" estou no tal lugar. Sonhos deliciosos, mas que invariavelmente me deixam triste quando acordo.

- Dorgas, Manolo!: Estes são aqueles sem pé nem cabeça. Um dos mais célebres foi quando fui expulsa de um avião em pleno vôo e decidi voar atrás dele para me vingar. O céu estava vermelho e eu voava com os braços abertos, como um avião. O avião, por sua vez, fugia de mim e volta e meia "olhava" - imaginem algo como Jay-Jay, o Jatinho - para trás para ver se eu ainda estava atrás dele. Bem que uma amiga dizia que na nossa turma "o mais normal corre atrás de avião". Faz sentido.

Tenho ainda várias outras categorias que poderia colocar aqui, mas deixo para contar sobre elas quando tiver sonhos fresquinhos - ou me lembrar de algum antigo - para relatar. Por enquanto deixo vocês só com uma idéia de o que se passa na minha cabeça enquanto estou dormindo.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Nascimento De Uma Pirâmide No Deserto Amarelo (ou A Manada De Búfalos Evangélicos Do Interior Da Pirâmide)

Sonho com a participação especial de Luara Lulua, João Carlos Villela e Leandro Chiaratti. Porque, bem, algumas vezes o meu subconsciente acha muito divertido colocar ozamiguë conhecido para fazer umas pontas nas minhas brisas representando os papéis mais esdrúxulos que ele é capaz de inventar.

...

Eu caminhava a esmo por um deserto muito seco e muito amarelo tendo apenas o Sol escaldante como companheiro. A areia sob meus pés era fina e fofa, fazendo com que meus pés se afundassem cansativamente a cada passada. Fazia calor, muito calor. Eu precisava desesperadamente de um copo de água.

- Olha, olha, olha, olha a água mineral! A água mineral! A água mineral! A água mineral do Candeal! Você vai ficar legal!

Levantei meus olhos em busca da voz que cantava animadamente aquela pseudo-música e avistei um homenzinho baixo e gordo de bigodes brancos. Seria uma miragem? Ele estava atrás de uma barraquinha com centenas de garrafas de água a sua volta. E, bem ao lado dele, ora vejam!, estava minha querida amiga Luara vestida de chapeuzinho vermelho e segurando uma cesta de doces caramelados.

- Lua! - eu disse, pegando uma garrafa de água de virando-a em um gole só - Que saudade! O que você está fazendo no meio do deserto num dia como esses?

- Estou vendendo doces! E água! Aliás, essa que você tomou custa dois reais.

E então o chão começou a tremer. As enormes dunas de areia movimentaram-se bruscamente e a ponta de algo parecido com uma pirâmide começou a surgir quase que debaixo dos meus pés.

- Xi, Carol. É melhor você chamar um táxi. Assistir ao nascimento de uma pirâmide pode causar sérios danos no cérebro - disse-me Lua, colocando seu capuz e sumindo no segundo seguinte, acompanhada logo em seguida pelo homenzinho de bigodes brancos.

Como diabos eu chamaria um táxi no meio de um deserto em trabalho de parto?

- Alguém pediu um táxi? - disse uma voz conhecida vinda de algum lugar acima da minha cabeça.

Em um tapete mágico voador cor-de-vinho estava um moço barbado trajando roupas orientais e um turbante branco cintilante.

- Oi Carol! Sobe logo, a bolsa já estourou, a pirâmide vai nascer a qualquer momento.

- João! Não sabia que você trabalhava como motorista de tapetes mágicos.

- Pois é. Nem eu.

Subi no tapete bem na hora em que a enorme pirâmide emergiu da areia com a força de mil megatons. Escapamos por pouco.

Quando as coisas se acalmaram, a versão taxista oriental do João me deixou em terra novamente e eu resolvi que seria uma excelente ideia explorar aquela recém-nascida pirâmide.

Entrei no monumento, agora vestindo roupas parecidas com as do Indiana Jones, e descobri que o interior da pirâmide era, na verdade, uma enorme campina iluminada pelo pôr-do-Sol onde uma manada de búfalos pastava sob o olhar atento - ou nem tão atento assim - de um moço vestindo botas de couro malhado e chapéu de caubói que se apoiava despreocupadamente em uma cerca de madeira.

- Chiaratti! - falei - Fazendo bico de pastor de búfalos?

- Pastores de búfalos são o que há de mais avançado em matéria de igrejas evangélicas.

Os búfalos não estavam pastando. Estavam rezando. Um deles, inclusive, gritava que seu colega estava possuído pelo demônio caprino e precisava ser exorcizado com três baforadas de erva-de-cheiro.

E então o Elvis Presley apareceu de trás de uma árvore dizendo que estava muito atrasado para o próximo show do século trinta e um e eu finalmente acordei.

...

XD

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A Terceira Guerra Mundial (Ou Como Eu Salvei O Mundo Com Apenas Um Maço De Cigarros)

Sonhei que caminhava alegremente por um parquinho infantil quando deparei-me com uma imensa torre feita de blocos de pedra e guardada por dois guardas romanos.

- Opa, e aí, beleza? - perguntei para um dos guardas.

- Na verdade não. Tá tendo a maior festança lá em cima e nós aqui em baixo, matando caramujos.

- Sabe como é - respondeu o outro - não podemos deixar entrar quem não foi convidado. E caramujos são a espécie mais penetra do planeta.

- Ei, você foi convidada? - perguntou o outro, erguendo sua lança em posição de combate.

- Obviamente.

- Tem o convite??

- Bem,  na verdade não. Mas não sou um caramujo, veja - respondi, abrindo os braços para que me vissem melhor.

- Não sei... tem essas coisas na sua cabeça que parecem antenas. O que você acha Scruge?

- Acho que isso é o cabelo dela, coitada. - respondeu o outro guarda - Não deve penteá-lo há o quê, umas duas décadas?

- É verdade. Tudo bem, então. Pode passar. Mas penteie o cabelo quando puder, sim?

E, então, entrei na torre. Havia uma escadaria circular de madeira logo após a entrada. Comecei a subir os degraus lentamente, estava tudo muito quieto para uma festa. Ao chegar ao topo da torre pude ver uma sala imensa, onde várias pessoas estavam agachadas.

- Todo mundo abaixado aí, então!! - gritou uma voz - Vamos tocar fogo!

"Puxa, a festa deve tá bombando, mesmo!" pensei.

Tiros de metralhadora começaram a ecoar pela sala. Um fósforo foi atirado em uma cortina, que começou a queimar quase imediatamente.

"Opa. É outro tipo de fogo. Talvez seja melhor correr".

Desci correndo a escada, e quando cheguei ao térreo, o Thiago, meu namorado, surgiu de trás de uma pilastra, com roupas rasgadas e uma faixa tipo "rambo" na cabeça dizendo-me que fazia parte da "Resistência" e que precisávamos dar o fora dali o quanto antes.

- Não há mais lugares seguros - disse ele, fazendo marcas de tinta guache preta em minhas bochechas e puxando-me pelo braço.

Saímos da torre. Os guardas romanos não estavam mais tomando conta da entrada. Talvez os caramujos tivessem desistido de ir à festa sem convite, uma vez que ela ficara um pouco mais quente do que o esperado, fazendo com que os guardas pudessem voltar para suas respectivas casas a tempo do chá com biscoitos e da novela das seis. Ou talvez eles simplesmente tivessem sido mortos pelos caras maus da história. Vai saber.

Quando chegamos ao parquinho infantil que havia nas imediações da torre alguns senhores fardados e suspeitos estavam rondando o local. Provavelmente eram os caras maus da história. Fizemos então o que era mais lógico naquele momento: fingimos ser crianças pequenas que não tinham ideia do que estava acontecendo e brincamos no balanço.

- Você precisa continuar - disse-me Thiago - Vai, eu fico aqui para te dar cobertura.

Andei por uma rua cheia de postes de iluminação antigos e cheguei na frente de um tipo de galpão cinzento. Nesta hora vários homens fardados apareceram escoltando muitos amigos meus da FFLCH que haviam sido presos por desordem e desacato a autoridade.

- Levem todos para interrogatório. O plano tem que continuar - disse um dos homens, que tinha grandes bigodes cinzas, para um subordinado.

- Estão planejando uma guerra nuclear total - cochichou-me alguém - Eles não sabem que você é da resistência. Faça alguma coisa!

Os caras maus da história levaram meus amigos para dentro do galpão. Eu precisava fazer alguma coisa!

- Mas que diabos! - disse o general de bigodes cinzas - Estou sem cigarros de novo. Essas leis malditas que aumentaram o preço dos maços, não aguento mais pagar tantos impostos.

- Ei, seu general! - disse eu, sacando um maço de cigarros Marlboro do bolso - Eu tenho cigarros.

- Ótimo. Me dá aqui.

- De jeito nenhum! - gritei, correndo de um lado para o outro me esquivando dos seus subordinados

- Peguem essa garota!! - gritou ele enfurecido. Mas eu era boa em "dar olé" nos caras maus da história, que, por sua vez, não tinham uma resistência física muito boa e caíam sem fôlego rapidamente. Talvez por isso eu fizesse parte da "Resistência" e eles não. Quem sabe.

- Será que vou ter que fazer tudo sozinho? - gritou o general, vindo em minha direção.

- Acalme-se, senhor general - disse eu, de cima de uma pilha de subordinados caídos - Eu posso te dar um cigarro, se você quiser.

- É claro que eu quero!

- Então vamos fazer um trato. Eu te dou este maço de cigarros novinho e fechadinho - disse eu, balançando o maço na frente dele - e você liberta meus amigos e desiste do plano maluco de bombardear o mundo.

- Eu não posso fazer isso.

- Então tudo bem, eu mesma vou fumar estes cigarros - respondi, abrindo o maço lentamente.

- Ah... não acredito que vou fazer isso, mas... - disse o general, tremendo - Podem soltar aqueles animais. E cancelem a guerra. Não vale mais a pena, mesmo.

Eu entreguei-lhe o maço de cigarros, meus amigos foram soltos, todos viveram felizes para sempre... e eu acordei.